Número 466 - Ano 19

Salvador, quarta-feira, 26 de maio de 2021

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«Porque os corpos se entendem, mas as almas não.» (Manuel Bandeira) *

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Bob Dylan
Bob Dylan



Amigas e amigos,

Nesta semana, em 24/05, o cantor e compositor norte-americano Bob Dylan completou 80 anos. Autor de numerosos clássicos da música internacional, Dylan é premiadíssimo e tornou-se, até hoje, o único artista da canção a ganhar, em 2016, o Prêmio Nobel de Literatura, graças à criatividade de suas letras. Segundo a Academia Sueca, doadora do prêmio, ele foi laureado por “ter criado novos modos de expressão poética no quadro da tradição da música americana”.

O Nobel foi apenas a láurea mais alta na carreira de Bob Dylan, que também já foi distinguido com os prêmios Pulitzer, Oscar, Grammy e Globo de Ouro. Isso sem contar outras respeitáveis referências. Em 2004, a revista musical Rolling Stone o destacou como o segundo melhor artista de todos os tempos, atrás somente dos Beatles. Mas não é só: sua canção Like a Rolling Stone (Como uma pedra rolante), de 1965, foi apontada na mesma avaliação como a melhor de todos os tempos.

Em seu currículo, Dylan tem ainda a honra de ter influenciado compositores como The Beatles e Jimi Hendrix, sem contar brasileiros do naipe de Caetano Veloso, Raul Seixas, Zé Ramalho e Belchior.

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Nascido em Duluth, no Estado de Minnesota, em 1941, Robert Allen Zimmerman descende de famílias judaicas originárias de Odessa (hoje Ucrânia) e da Lituânia. Desde cedo, formou várias bandas de rock e, após entrar para a universidade de seu estado, em 1959, começou a se aproximar da música folk, a música americana de origem folclórica. Mas o futuro hipercompositor só permaneceu um ano na universidade. Influenciado pela escrita e as atitudes dos poetas da geração beat, mudou o nome para Bob (apelido de Robert) Dylan, uma lembrança do poeta galês Dylan Thomas (1914-1953), que alcançou enorme sucesso nos Estados Unidos lendo poemas no início dos anos 1950.

As letras longas (há canções como Hurricane, de 1975, que duram mais de 8 minutos!) e marcadas por uma poesia original constituem a marca registrada das canções de Bob Dylan. Autor de centenas de canções, ele cobre um vasto campo de temas, que se estendem do amor à crítica social. Músicas sobre racismo, guerra, violência e também sobre momentos íntimos, de tudo se encontra um pouco no volumoso trabalho desse artista, que reúne mais de 70 álbuns, de 1962 até agora.

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Em relação ao Prêmio Nobel, é justo fazer uma ponderação. Certamente devem existir nos quatro cantos do mundo outros compositores de letras tão afiadas quanto as de Dylan. Mas Dylan, inegavelmente criativo, tem sobre todos eles duas vantagens enormes: é artista que produz dos Estados Unidos para o mundo, e produz em língua inglesa.

É difícil e impróprio comparar artistas, ainda mais de línguas e culturas diferentes. Contudo, nada me impede de dizer que temos aqui letristas da mesma estirpe de Dylan, a exemplo de Caetano Veloso e Chico Buarque — para ficar somente em dois dos mais conhecidos e celebrados. Primeiro, nenhum dos dois tem a fama internacional de Bob Dylan, algo quase impossível para alguém de língua portuguesa. Depois, será que na Academia Sueca existe alguém que entenda português brasileiro?

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Para este boletim, selecionei cinco canções cujas letras me parecem ilustrar bem alguns ângulos da criação dylaniana. Essa escolha foi bastante difícil porque ficou condicionada a alguns parâmetros. Dei preferência a canções que já tivessem versões em português gravadas no Brasil. Por quê? A resposta é simples e está fundamentada num ponto de vista que sempre defendo: letra de música pode conter poesia (e Dylan encarna uma prova cabal disso), mas não é poema. Então, nada melhor do que apresentar uma canção com letra em inglês mediante uma versão competente cantada em nossa língua.

Assim, quatro das letras ao lado são listadas com o texto original, antecedido por uma versão em português gravada no Brasil. É o caso, por exemplo, de Negro amor, versão escrita por Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti para It's All Over Now, Baby Blue, gravada por Gal Costa em 1977.

Mas, para mostrar o próprio Bob Dylan em ação, abri a seleção de canções com o compositor cantando a estupenda Jokerman, música de seu álbum Infidels, de 1983. Nesse caso, como não tenho notícia de uma versão cantada em português, incluí uma tradução rápida que eu mesmo fiz. A letra original aparece, completa, no vídeo que acompanha a tradução.

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Passemos, agora, aos comentários.

A letra de Curinga (Jokerman) constitui um dos momentos mais inspirados do compositor. Selecionei-a de propósito, com o intuito de mostrar a riqueza de metáforas e referências usadas pelo autor. Não é um texto para distraídos. O primeiro verso (“De pé sobre as águas, lançando seu pão”) já contém certa estranheza. À primeira vista, parece uma coisa sem sentido. Trata-se, no entanto, de uma alusão bíblica. No livro do Eclesiastes, capítulo 11, versículo 1, está escrito: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás”. Não sou religioso nem versado no Velho Testamento, mas alguns interpretam essa frase como sendo a mesma ideia de que você colhe o que planta. Confesso que não sei.

Se você continuar a leitura da letra de Curinga, vai encontrar uma batelada de outras referências a histórias bíblicas, como “o ídolo com cabeça de ferro” e a ausência da verdade — tudo na primeira estrofe. Há ainda outras citações bíblicas, como Sodoma e Gomorra e os livros Levítico e Deuteronômio. Na segunda estrofe, Dylan cita o romancista inglês E.M. Forster, autor do livro Onde Os Anjos Temem Pisar, de 1905. A frase “Os tolos entram afoitos onde os anjos temem pisar” foi retirada desse romance.

As citações são muitas. Seria necessário dedicar um boletim inteiro somente a esta letra. Há também as alusões históricas. Observem que, no videoclipe, aparece a figura de Adolf Hitler quando a letra fala em “manipulador de multidões” (manipulator of crowds).

É importante notar que a própria figura do Curinga é rica e contraditória. No dicionário, você constata que o curinga, carta do baralho que pode substituir outras, tem também o significado de indivíduo versátil, capaz de desempenhar múltiplas funções. É também o ator que faz vários papéis na mesma peça ou o jogador que, numa equipe, tem condições de atuar em diferentes posições. O Curinga é, portanto, um personagem que tem poderes. Mas Dylan conclui a letra dizendo que ele não apresenta nenhuma resposta às angustiantes perguntas que assombram a humanidade.

Não incluí aqui a letra em inglês de Jokerman. Contudo, é fácil consultá-la. Basta ir ao site BobDylan.com. Extraí de lá todas as letras expostas ao lado. Para os mais interessados na obra de Bob Dylan, também vale a pena consultar o livro Bob Dylan - Letras (1961-1974), tradução de Caetano W. Galindo, editado pela Companhia das Letras. Observem que o livro cobre a obra de Dylan até meados dos anos 70. Jokerman, por exemplo, que é dos anos 80, não está lá.

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Permitam-me mais uma breve observação sobre as diferenças de letra musical e poema. Vejam a primeira estrofe de Curinga (Jokerman). Quando se lê o texto, apenas o texto, tende-se a enxergar ali um punhado de frases soltas, sem concatenação. Contudo, ao ouvir a música, percebe-se que há claramente três blocos lógicos na estrofe. A primeira compreende os dois versos iniciais. A segunda abrange as duas linhas seguintes. No quinto verso, que começa com “A liberdade”, nota-se uma mudança. Não sei descrever exatamente o que acontece, porque não entendo de música. Mas noto que essa mudança ou variação musical separa os versos anteriores dos dois últimos da estrofe.

Se, em vez de uma letra de canção, estivéssemos lendo um poema, não contaríamos com esse recurso externo para pontuar o texto. Num poema, tudo se resolve com palavras e os sinais comuns disponíveis na língua. Aí está mais uma sutil diferença entre letra de canção e poema. Na letra, o andamento da música interfere na percepção do texto.

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Vamos agora para as letras com versões musicais. O paraibano Zé Ramalho apresenta-se como o mais entusiasmado dylanista da MPB. Em 2008 ele chegou a gravar um álbum chamado Zé Ramalho Canta Bob Dylan - Tá Tudo Mudando, em homenagem ao compositor americano. As duas canções ao lado, interpretadas por ele, estão nesse disco.

A primeira delas é Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem, versão de Don’t Think Twice, It’s All Right. Trata-se de uma canção de amor — ou, mais especificamente, um canto de separação, aparentemente sem muita mágoa. “Eu lhe dei meu coração e ela quis minha alma / Nem pensei duas vezes, tá tudo bem”. A versão é assinada por Zé Ramalho e Babal.

A outra canção também interpretada por Zé Ramalho é Mister do Pandeiro, versão de Mr. Tambourine Man assinada por Bráulio Tavares. Aí está outra letra fantástica, quilométrica, centrada num personagem, um músico de rua, tocador de pandeiro. Em letras como esta Dylan mostra bem a influência que recebeu da poesia surrealista e da poesia beat. O sujeito lírico é também um vagabundo: “Hey, Mister do Pandeiro, toque para mim / Não estou com sono e não tenho aonde ir”. Se ele não tem rumo no chão, em compensação faz incríveis viagens poéticas, sob céus de diamante, oceanos cristalinos e delírios esfumaçados. Uma canção bem da era hippie dos anos 1960.

Na versão, destaca-se o abrasileiramento da letra, que aproveita o instrumento do personagem para homenagear o grande cantor, compositor e ritmista paraibano Jackson do Pandeiro (1919-1982). Aliás, em todo esse disco de Zé Ramalho, o abrasileiramento não está somente nas letras: aparece também nos arranjos meio “abaiãozados” e nos instrumentos bem nordestinos, como a sanfona.

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A próxima canção é Negro Amor, versão de It's All Over Now, Baby Blue, gravada por Gal Costa em 1977. A letra em português foi escrita por Caetano Veloso em parceria com Péricles Cavalcanti. Salvo engano, esta é a primeira canção de Bob Dylan, em português, a alcançar notoriedade no Brasil. O clima, nesta Baby Blue, é similar ao de Não Pense Duas Vezes, uma vez que também aqui há sinais de um fim de relacionamento. As imagens também lembram as de Mr. Tambourine Man

Vale destacar a riqueza da versão, que honra a criação dylaniana. No original, os dois últimos versos de Dylan dizem apenas: “Risque outro fósforo, comece de novo / E está tudo acabado, Baby Blue”. Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti puseram ainda mais brilho neste trecho: “Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor / E não tem mais nada, negro amor”.

Vem, por fim, uma das canções mais conhecidas de Bob Dylan, Blowin’ In The Wind, vertida para o português e cantada pela baiana Diana Pequeno em 1978. A cantora fez uma versão bastante adequada dos versos de Dylan lançados em 1963. Um detalhe curioso: ela preferiu não traduzir nem o refrão nem o nome da canção, que permaneceram iguais aos originais. Em seu disco com canções de Dylan, Zé Ramalho registrou a música com nova letra, dele mesmo. O refrão de Zé Ramalho é: “Escute o que diz o vento, my friend / O vento vai responder”. O título, portanto, ficou sendo O Vento Vai Responder.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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Canções que valem o Nobel


• Bob Dylan


              




Bob Dylan, Jokerman, do álbum Infidels (1983)


CURINGA (JOKERMAN)

De pé sobre as águas, lançando seu pão
Enquanto brilham os olhos do ídolo com cabeça de ferro
Barcos distantes navegam para a bruma
Você nasceu com uma cobra em cada punho, enquanto soprava um furacão
A liberdade para você é só dobrar a esquina
Mas com a verdade tão distante, qual benefício isso pode trazer?

Curinga, dance a canção do rouxinol
Pássaro, voe alto à luz da lua
Ohhhhh, oh, oh, ohhhhh oh oh oh oh Curinga

O sol se põe velozmente no céu
Você se levanta e dá adeus a ninguém
Os tolos entram afoitos onde os anjos temem pisar
O futuro de ambos, cheio de pavor, você não mostra nenhum
Tirando mais uma camada de pele
Mantendo um passo à frente do perseguidor interno

Curinga, dance a canção do rouxinol
Pássaro, voe alto à luz da lua
Ohhhhh, oh, oh, ohhhhh oh oh oh oh Curinga

Você é um homem das montanhas, é capaz de andar nas nuvens
Manipulador de multidões, você distorce sonhos
Você está indo para Sodoma e Gomorra
Mas o que importa? Lá ninguém vai querer desposar sua filha
Amigo do mártir, amigo da mulher de vergonha
Você olha para dentro da fornalha ardente, vê o homem rico sem nome

Curinga, dance a canção do rouxinol
Pássaro, voe alto à luz da lua
Ohhhhh, oh, oh, ohhhhh oh oh oh oh Curinga

O livro do Levítico e o Deutoronômio
A lei da selva e do mar são seus únicos professores
Na fumaça do crepúsculo num corcel branco leitoso
Michelangelo de fato poderia ter esculpido suas feições
Descansando no campo, longe do espaço turbulento
Meio adormecido perto das estrelas com um cãozinho lambendo seu rosto

Curinga, dance a canção do rouxinol
Pássaro, voe alto à luz da lua
Ohhhhh, oh, oh, ohhhhh oh oh oh oh Curinga

O atirador está perseguindo os doentes e os aleijados
O pregador faz o mesmo, não se sabe quem chegará lá primeiro
Cassetetes e canhões d'água, gás lacrimogêneo, cadeados
Coquetéis molotov e pedras atrás de cada cortina
Juízes traiçoeiros, morrendo nas teias que eles mesmos tecem
Apenas uma questão de tempo até que a noite chegue

Curinga, dance a canção do rouxinol
Pássaro, voe alto à luz da lua
Ohhhhh, oh, oh, ohhhhh oh oh oh oh Curinga

É um mundo sombrio, os céus são de um cinza escorregadio
Hoje uma mulher deu à luz um príncipe e o vestiu de escarlate
Ele porá o pregador no bolso e a lâmina no calor
Tirem da rua as crianças sem mãe
E coloquem-nas aos pés de uma prostituta
Oh, Curinga, você sabe o que ele quer
Oh, Curinga, você não apresenta nenhuma resposta

Curinga, dance a canção do rouxinol
Pássaro, voe alto à luz da lua
Ohhhhh, oh, oh, ohhhhh oh oh oh oh Curinga

     • Curinga (Jokerman), tradução de Carlos Machado





Não Pense Duas Vezes, Tá Tudo Bem (Don’t Think Twice, It’s All Right), com Zé Ramalho, versão Zé Ramalho/Babal


NÃO PENSE DUAS VEZES, TÁ TUDO BEM

Não adianta se sentar e imaginar, não
Nem importa como for
Não adianta se sentar e imaginar, não
Você nunca se queixou
Quando o galo cantar no quebrar da aurora
Olhe na janela, eu já estou indo embora
Você é a razão d’eu estar mundo afora
Não pense duas vezes, tá tudo bem

Não adiantará acender a sua luz, não
Essa luz não tem clarão
Não adiantará acender a sua luz, não
Estou do lado da escuridão
Mesmo assim desejei que você dissesse
Algo para me fazer mudar, se quisesse
Mas a gente nunca se falou, nem se apresse
Nem pense duas vezes, tá tudo bem

Não adianta meu nome chamar, não
Nem como nunca chamou
Não adianta meu nome chamar, não
Você nunca me escutou
Vou passando e pensando pelo caminho
Na mulher que amei e me tirou a calma
Lhe dei meu coração e ela quis minha alma
Nem pensei duas vezes, tá tudo bem

     • Não pense duas vezes, tá tudo bem, versão Zé Ramalho/Babal



DON’T THINK TWICE, IT’S ALL RIGHT

It ain’t no use to sit and wonder why, babe
It don’t matter, anyhow
An’ it ain’t no use to sit and wonder why, babe
If you don’t know by now
When your rooster crows at the break of dawn
Look out your window and I’ll be gone
You’re the reason I’m trav’lin’ on
Don’t think twice, it’s all right

It ain’t no use in turnin’ on your light, babe
That light I never knowed
An’ it ain’t no use in turnin’ on your light, babe
I’m on the dark side of the road
Still I wish there was somethin’ you would do or say
To try and make me change my mind and stay
We never did too much talkin’ anyway
So don’t think twice, it’s all right

It ain’t no use in callin’ out my name, gal
Like you never did before
It ain’t no use in callin’ out my name, gal
I can’t hear you anymore
I’m a-thinkin’ and a-wond’rin’ all the way down the road
I once loved a woman, a child I’m told
I give her my heart but she wanted my soul
But don’t think twice, it’s all right

I’m walkin’ down that long, lonesome road, babe
Where I’m bound, I can’t tell
But goodbye’s too good a word, gal
So I’ll just say fare thee well
I ain’t sayin’ you treated me unkind
You could have done better but I don’t mind
You just kinda wasted my precious time
But don’t think twice, it’s all right

     • Do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)





Negro amor (It's All Over Now, Baby Blue), com Gal Costa, em versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti


NEGRO AMOR

Vá, se mande, junte tudo que você puder levar
Ande, tudo que parece seu é bom que agarre já
Seu filho feio e louco ficou só
Chorando feito fogo à luz do sol
Os alquimistas já estão no corredor
E não tem mais nada, negro amor

A estrada é pra você, e o jogo e a indecência
Junte tudo que você conseguiu por coincidência
E o pintor de rua que anda só
Desenha maluquice no seu lençol
Sob os seus pés o céu também rachou
E não tem mais nada, negro amor

Seus marinheiros mareados abandonam o mar
Seus guerreiros desarmados não vão mais lutar
Seu namorado já vai dando fora
Levando os cobertores, e agora?
Até o tapete, sem você, voou
E não tem mais nada, negro amor

As pedras do caminho deixe para trás
Esqueça os mortos que eles não levantam mais
O vagabundo esmola pela rua
Vestindo a mesma roupa que foi sua
Risque outro fósforo, outra vida, outra luz, outra cor
E não tem mais nada, negro amor

     • Negro amor, versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti



IT’S ALL OVER NOW, BABY BLUE

You must leave now, take what you need, you think will last
But whatever you wish to keep, you better grab it fast
Yonder stands your orphan with his gun
Crying like a fire in the sun
Look out the saints are comin’ through
And it’s all over now, Baby Blue

The highway is for gamblers, better use your sense
Take what you have gathered from coincidence
The empty-handed painter from your streets
Is drawing crazy patterns on your sheets
This sky, too, is folding under you
And it’s all over now, Baby Blue

All your seasick sailors, they are rowing home
All your reindeer armies, are all going home
The lover who just walked out your door
Has taken all his blankets from the floor
The carpet, too, is moving under you
And it’s all over now, Baby Blue

Leave your stepping stones behind, something calls for you
Forget the dead you’ve left, they will not follow you
The vagabond who’s rapping at your door
Is standing in the clothes that you once wore
Strike another match, go start anew
And it’s all over now, Baby Blue

     • Do álbum Bob Dylan - Bringing It All Back Home (1965)





Blowin’ in the wind, com Diana Pequeno, versão dela para o português


BLOWIN’ IN THE WIND

Quantos caminhos um homem deve andar
Pra que seja aceito como um homem
Quantos mares uma gaivota irá cruzar
Pra poder descansar na areia
Quanto tempo as balas dos canhões explodirão
Antes de serem proibidas

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

Quantas vezes deve um homem olhar pra cima
Para poder ver o céu
Quantos ouvidos um homem deve ter
Para ouvir os lamentos do povo
Quantas mortes ainda serão necessárias
Para que se saiba que já se matou demais

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

Quanto tempo pode uma montanha existir
Antes que o mar a desfaça
Quantos anos pode um povo viver
Sem conhecer a liberdade
Quanto tempo um homem deve virar a cabeça
Fingindo não ver o que está vendo

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

     • Blowin’ In The Wind, versão de Diana Pequeno



BLOWIN’ IN THE WIND

How many roads must a man walk down
Before you call him a man?
Yes, ’n’ how many seas must a white dove sail
Before she sleeps in the sand?
Yes, ’n’ how many times must the cannonballs fly
Before they’re forever banned?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

How many years can a mountain exist
Before it’s washed to the sea?
Yes, ’n’ how many years can some people exist
Before they’re allowed to be free?
Yes, ’n’ how many times can a man turn his head
Pretending he just doesn’t see?
The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

How many times must a man look up
Before he can see the sky?
Yes, ’n’ how many ears must one man have
Before he can hear people cry?
Yes, ’n’ how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?

The answer, my friend, is blowin’ in the wind
The answer is blowin’ in the wind

     • Do álbum The Freewheelin’ Bob Dylan (1963)





Mister do Pandeiro (Mr. Tambourine Man), com Zé Ramalho, em versão
de Bráulio Tavares


MISTER DO PANDEIRO

Hey, mister do pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho aonde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã, eu poderei te seguir

Sei que a noite, seus impérios desmoronam sobre o chão
Ao toque das minhas mãos
Eu sol enxergo na manhã um sol de assassinar
O cansaço me atordoa enquanto eu ando para o além
Procurando por ninguém
Em velhas ruas já desertas sem poder sonhar

Hey, mister do pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho aonde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã, eu poderei te seguir

Me leve nas viagens do seu mágico navio
Eu já cansei deste vazio, as minhas mãos tremem de frio
Mas os meus pés, que o chão feriu ainda têm forças pra seguir
O teu caminho
Eu irei onde você quiser pelas rotas que tracei
Se o teu canto eu escutei, enfeitiçado eu fiquei
E sei que já não vou seguir sozinho

Hey, mister do pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho aonde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã, eu poderei te seguir

Se uma gargalhada louca esvoaçar pela amplidão
E ecoar sem direção, alguém vai pensar que são
As muralhas do horizonte a desabar
E se alguém ouvir o eco de uma canção feita em pedaços
Ressoando nos espaços é só a voz deste palhaço
Que canta enquanto segue os passos
De uma sombra que ele vive a procurar

Hey, mister do pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho aonde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã, eu poderei te seguir

Vou sumir por entre a névoa de um delírio enfumaçado
Entre as ruínas do passado, deixo a folhagem glacial
De um bosque branco e sepucral, vou para um mar de vendavais
Longe das garras da tristeza e da aurora
Sob um céu de diamantes vou dançar como um menino
Entre o oceano cristalino e um circo errante e peregrino
Deixo as memórias e o destino sumir num abismo sem fim
Quero amanhã lembrar que hoje eu fui embora

Hey, mister do pandeiro, toque para mim
Não estou com sono e não tenho aonde ir
Hey, Jackson do Pandeiro, toque para mim
E entre as canções desta manhã, eu poderei te seguir

     • Mister do Pandeiro (Mr. Tambourine Man), versão de Bráulio Tavares



MR. TAMBOURINE MAN

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Though I know that evenin’s empire has returned into sand
Vanished from my hand
Left me blindly here to stand but still not sleeping
My weariness amazes me, I’m branded on my feet
I have no one to meet
And the ancient empty street’s too dead for dreaming

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Take me on a trip upon your magic swirlin’ ship
My senses have been stripped, my hands can’t feel to grip
My toes too numb to step
Wait only for my boot heels to be wanderin’
I’m ready to go anywhere, I’m ready for to fade
Into my own parade, cast your dancing spell my way
I promise to go under it

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Though you might hear laughin’, spinnin’, swingin’ madly across the sun
It’s not aimed at anyone, it’s just escapin’ on the run
And but for the sky there are no fences facin’
And if you hear vague traces of skippin’ reels of rhyme
To your tambourine in time, it’s just a ragged clown behind
I wouldn’t pay it any mind
It’s just a shadow you’re seein’ that he’s chasing

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

Then take me disappearin’ through the smoke rings of my mind
Down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves
The haunted, frightened trees, out to the windy beach
Far from the twisted reach of crazy sorrow
Yes, to dance beneath the diamond sky with one hand waving free
Silhouetted by the sea, circled by the circus sands
With all memory and fate driven deep beneath the waves
Let me forget about today until tomorrow

Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
I’m not sleepy and there is no place I’m going to
Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me
In the jingle jangle morning I’ll come followin’ you

     • Do álbum Bob Dylan - Bringing It All Back Home (1965)





poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2021



Bob Dylan
      •  Todas as letras em inglês: site BobDylan.com

      • “Curinga”, tradução de Carlos Machado
      • Blowin’ in the wind, versão de Diana Pequeno
      • Mister do Pandeiro, versão de Bráulio Tavares
      • Não pense duas vezes, tá tudo bem, versão de Zé Ramalho/Babal
      • Negro amor, versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti
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* Manuel Bandeira, “Arte de Amar”, in Belo Belo (1948)