Número 493 - Ano 20

Salvador, quarta-feira, 24 de agosto de 2022

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«Os anjos e os poetas são os únicos que não riem dos loucos.» (Mario Quintana) *

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Iacyr Anderson Freitas
Iacyr Anderson Freitas



Amigas e amigos,

O poeta Iacyr Anderson Freitas (Patrocínio do Muriaé-MG, 1963) lançou seu primeiro livro de poesia, Verso e Palavra, em 1982. Completa agora, portanto, 40 anos de trajeto literário. E, para comemorar, traz a público nova coletânea de poemas: Os Campos Calcinados (Faria e Silva, 2022).

Neste livro, a poesia do autor exibe múltiplas facetas, com ampla diversidade de temas. Aqui no boletim, no entanto, quero focar em alguns aspectos que, a meu ver, ganham agora maior destaque no trabalho de Iacyr. São aspectos que refletem a idade do poeta, que este ano completa 59 setembros. Com quase seis décadas de vida, o indivíduo começa a meditar sobre temas com os quais naturalmente não se inquietava quando, ainda adolescente, publicou seu primeiro livro.

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Um desses temas é a morte. A indesejada das gentes aparece em vários textos do livro. Está subentendida, por exemplo, no poemeto “Quem, afinal”. Aí os dias são comparados a “aves de arribação”. A ideia da finitude da vida também surge em outro poema curto, “Desconvite”. O sujeito lírico, desapontado, lamenta: “outrora eu brindava às musas/ estão cheios os odres dizia/ e elas nunca vinham”. Agora, em sentido contrário, ele brinda a Tânatos, o deus da morte, para que não venha. Faz a ele o “desconvite” do título, mas sabe que, com certeza, ele não deixará de vir.

Tânatos também dá o ar de sua falta de graça no poema “Véspera de Natal, a débito”. Igualmente compacto, este poema trata da perda dos integrantes mais velhos da família. E surge a preocupação: quem será o próximo? Essa indagação nos remete ao aniversário no qual o heterônimo pessoano Álvaro de Campos relembra a infância e deplora: “No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,/ Eu era feliz e ninguém estava morto”.

As recordações de infância são outro tema que ressalta na nova coletânea de Iacyr Anderson Freitas. Elas aparecem, por exemplo, em “Últimos acordes”. O narrador se propõe a voltar à cidade dos primeiros anos de vida, reencontrar as pessoas do passado e até a banda de música no coreto. Conclui, no entanto que é algo magoadamente inútil: “voltar em vão/ aonde todos fugiram”.

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As inflexões líricas voltadas para o tempo que passou não impedem o poeta de observar o presente. Aqui no boletim (edição n. 420) já tive a oportunidade de publicar o poema “Vale quanto lesa”, escrito por Iacyr Anderson Freitas logo após a catástrofe de Brumadinho. Esse poema, não transcrito aqui, integra agora Os Campos Calcinados.

Mas há no livro dos 40 anos de poesia outros exemplos dessa antena voltada para a realidade. Um é “Maria Mina”, serviçal que executa todos os trabalhos da casa. A família dos patrões só percebe a importância de Maria Mina depois que ela morre e, entre outros incômodos, “o peso do pó” se instala sobre a mobília.

Conforme se vê, no caso de Maria Mina também surge o dedo de Tânatos. O mesmo acontece no poema “Eufemismo: Rio, 1973”. O contexto aí é a barra pesada da ditadura militar. O “eufemismo” do título consiste em dizer que o opositor é um “fugitivo”. Na verdade, uma pessoa que já foi assassinada nos porões da tortura.

O poeta também se mostra atento para os termos criados em tempos bem recentes, como “Pós-verdade”. Aí está outro eufemismo. A rigor — e isso fica demonstrado no poema —, a pós-verdade é apenas uma mentira, temperada com boas doses de cinismo. Por fim, ao autor também não falta a capacidade de rir e ironizar. Ria você também, lendo o poema “Paraíso Novo da Lapinha”.

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O mineiro Iacyr Anderson Freitas é engenheiro civil e mestre em teoria da literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora, cidade onde reside. Suas coletâneas poéticas mais recentes são: Os Campos Calcinados (2022); Estação das Clínicas (2016); e Ar de Arestas (2013). Além de quase três dezenas de títulos de poesia, o autor publicou livros de ficção e ensaios, e tem ainda numerosas participações em antologias. Além desta edição, Iacyr Anderson Freitas já figurou aqui no poesia.net em três outras: n. 420; n. 373; e n. 29.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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Aves de arribação


• Iacyr Anderson Freitas


              

Amedeo Modigliani- Jeanne Hebuterne sentada - 1918
Amedeo Modigliani, italiano, Jeanne Hebuterne sentada (1918)


QUEM, AFINAL

os dias também os dias
são aves de arribação

quem afinal saberia
para onde os dias vão?

(a igreja que te batiza
já te oferta a extrema-unção)


DESCONVITE

outrora eu brindava às musas

estão cheios os odres dizia
e elas nunca vinham

hoje ergo a Tânatos a taça

vazios os odres não venha agora
oh deus da hora mística e má


ergo-a em vão pois sei
que a meu desconvite

ele faltará


Amedeo Modigliani- Madame Kisling - c.1917
Amedeo Modigliani, Madame Kisling (c.1917)


ÚLTIMOS ACORDES

voltar à estação
para rever o pai ainda a postos
o menino Tonico salvo do sarampo
e a avó que pensa enxugar
o solavanco dos anos
no avental muito branco

voltar em vão
aonde todos fugiram

ficar só
naquele coreto
para ouvir
os últimos acordes
do maestro Waldir
e seu quarteto


VÉSPERA DE NATAL, A DÉBITO

há dois anos
meus pais à mesa

ano passado
só meu pai

hoje o dano
que há na certeza

me pergunta quem vai


Amedeo Modigliani- portrait of a woman - 1917-18
Amedeo Modigliani, Retrato de uma mulher (1917-18)


MARIA MINA

1. (ela fala)

é triste ser notada assim

porque faltou no arroz
o hálito
do alecrim

porque à noite as portas não estavam no trinco
e as calças de linho perderam a cor
e o vinco

é triste ser lembrada por esses dez doze avos

que são a vida
dos escravos


2. (quem fala: a casa)

foi quando a família
soube o peso do pó
sobre a mobília

a água fresca que não descia das calhas
para os ubres
de cada talha

a escovação das roupas pretas
a limpeza das sedas

e as camisas
não mais nas gavetas

foi quando os cantos do forro teceram teias
e não havia mais pães no forno
nem goiaba em calda na ceia

quando o leite talhou nos tachos
e as trempes não tinham
lenha ou facho

foi então que se sentiu
a morte

a mão da morte e seu redil


Amedeo Modigliani- The Italian woman - 1917
Amedeo Modigliani, Mulher italiana (1917)


EUFEMISMO: RIO, 1973

teu nome consta da lista de fugitivos

e isto
diz apenas
que tu não estás mais entre os vivos

que serás para sempre mais um desaparecido
cujo nome
inda consta da lista de fugitivos

escrevo-o agora enquanto cismo

— como pode ser tão cruel
esse cruel

eufemismo


PÓS-VERDADE

deixo aqui registrado:
daquilo que te disse
nada aconteceu

mas não fiques
assim tão zangado

: não pode ser meu
esse passado

que ninguém viveu?


PARAÍSO NOVO DA LAPINHA

O lugarejo é feio.
O vale é feio.
O coreto é feio.

Que diacho:
até o riacho
é feio.

E ainda tem
um trem
no meio.




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2022


Foto: Mariana Freitas


Iacyr Anderson Freitas
      in Os Campos Calcinados
      Faria e Silva, São Paulo, 2022
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* Mario Quintana, "E quando se aproximou a hora", in Caderno H (1973)
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* Imagens: quadros do pintor italiano Amedeo Modigliani (1884-1920)