Número 41

São Paulo, quarta-feira, 15 de outubro de 2003 

«Poesia é a arte de criar jardins imaginários com sapos reais.» (Marianne Moore)
 


Paulo Ferraz


Caros amigos,

Nascido em 1974, o mato-grossense Paulo Ferraz é poeta de um Brasil de perfil urbano. Praticante de um lirismo enxuto, ele extrai muitos de seus poemas de momentos triviais no dia-a-dia da metrópole — leia-se São Paulo, onde vive desde 1995.

Seus versos tendem a fixar esses momentos como se as palavras fossem os traços de um quadro impressionista. Veja-se, como exemplo, o poema "Motorista - Linha 478-P". Do alto de seu "trono de curvim", o altivo chofer corinthiano deflagra um instantâneo na imaginação do leitor.

Em "Veja Esta Dama", o ambiente é ainda das artes visuais, mas ganha movimento à medida que a madura porém formosa senhora caminha em direção ao embevecido (e jovem) observador. O adjetivo formal "venusta" — que vem de Vênus, a deusa da beleza — contrasta com a linguagem solta e coloquial, do resto do poema. Talvez o poeta queira destacar o imenso fascínio da mulher que passa. Vendo de outro ângulo, "venusta" também pode reforçar a idéia de que a dama é mais velha que o admirador — e, portanto, mais distante.

No primeiro poema ao lado, "A Partir da Topografia", o poeta assume os instrumentos do cartógrafo para catalogar sinais particulares da amada ausente. Uma forma especial de mapear a saudade: com teodolito, régua e compasso.

Advogado, Paulo Ferraz é também editor de Sebastião, revista de poesia, e publicou o volume Constatação do Óbvio (Selo Sebastião Grifo, 1999).

Um abraço,

Carlos Machado

 

 

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Veja mais poemas de Paulo Ferraz no boletim n. 227.

 

Instantâneos da metrópole

Paulo Ferraz

 

 

Hope Gangloff - Catherine
Hope Gangloff, pintora americana, Catherine


A PARTIR DA TOPOGRAFIA

Aprende-se muito
com a ausência. Cito a arte
da cartografia, do
paciente desenho
feito olhos a dentro
sem régua ou compasso,
com o qual catalogo, a
posteriori, pintas,
sinais de nascença, e as
(não sem ser expert no
teodolito) marcas
de uma catapora.




Hope Gangloff - Damn
Hope Gangloff, Droga!



MOTORISTA - LINHA 478-P

Embora não tenha porte —
nem precisaria, pois quem o
tem? — de autoridade, senta
majestoso no seu trono
de curvim, forrado às vezes
com um capacho de retalhos,
sempre segurando o cetro
decorado com o escudeto
do Corinthians. A senhora
palmeirense entra de joelhos.
No mar, capitão com Deus se
parelha, no ônibus, ele.



Hope Gangloff - Teddy Shumaker
Hope Gangloff, Teddy Shumaker



VEJA ESTA DAMA


Caio cedo da cama
todos os dias (tenho
de cumprir a pena
dos três paus a troco
de sal) e uma vez que a
janela está aberta,
aproveito meus cinco
minutos que sobram,
fumando. Sem falta,
no último trago, ela
aparece na esquina
com a compra da feira
feita pra si. Lenta,
posso espiar com calma
sua venustidade: o
coque como sempre
espontâneo, sem espelho; a
clavícula e os quadris que
salientes adornam
sua silhueta sob o
vestido; e um vestígio
de pele que surge
de um passo a outro. Quando
mais perto, nos olhos
baços descubro onde
guarda sua beleza
de agora. Ah, se eu fosse
trinta anos mais velho.

Do peitoril lanço a
ponta na calçada
que queima até a cinza.


                   

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2003

Paulo Ferraz
•  "A Partir da Topografia";
   
In Constatação do Óbvio
    Selo Sebastião Grifo, São Paulo, 1999
• 
"Motorista - Linha 478-P";
    "Veja Esta Dama"

    Poemas avulsos
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Imagens: quadros da pintora americana
Hope Gangloff (1974-)