Número 213 - Ano 5

São Paulo, quarta-feira, 13 de junho de 2007

«O relógio de parede numa velha fotografia — está parado?» (Mario Quintana) *
 


Neide Archanjo


Caros amigos,

Poeta, advogada, psicóloga, Neide Archanjo nasceu em São Paulo. Estreou na poesia em 1964 como o livro Primeiros Ofícios da Memória. Ativista literária, participou de movimentos como o Poesia na Praça, que promovia recitais na rua. Aliás, seu terceiro livro, publicado em 1970, tem exatamente esse título: Poesia na Praça.

Em 2004 Neide Archanjo juntou  dez livros no volume Todas as Horas e Antes Poesia Reunida, do qual extraí todos os poemas ou trechos transcritos ao lado. Num volume de 500 páginas há certamente o que escolher. No entanto, curiosamente, assinalei uma série de textos. Depois percebi que, sem premeditar,  selecionei apenas poemas que destacam o rico lirismo amoroso da autora.

Conforme vocês podem constatar, trata-se de poemas intensamente sensuais, escritos como se houvesse um feixe de sensações estabelecendo um circuito fechado entre a mão que escreve e o olho que vê. Sim, são textos muito visuais, muito corporais, voyeuristicamente eróticos. "Atrás da curva dos teus ombros / uma chuva caía incessante / um pouco água um pouco bruma", diz um poema.
Outro: "A carne dos meus pensamentos tem a polpa / destas ameixas / mas falta volúpia / e perfume".

Para mim, no entanto, a poeta atinge seu apogeu nessa temática amorosa no longo poema "Sítio III", do qual reproduzo aqui um excerto relativamente extenso.  Apreciem este trecho: "Veio negra / lindíssima / como um lírio de Ofir / e habitou a tenda que armei / entre silêncios / do ócio mais ardente / alegria luminosa de carícias / coisas perfumadas trazidas de viagens / feitas por terra / e por mar."

Há outros assim, muitos outros, ao longo do poema. Páginas luminosas.


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

 

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CARTAS DE AMOR

Hoje é 13 de junho, dia em que nasceu o poeta Fernando António Nogueira Pessoa, em 1888. Para lembrar o dia de São Fernando António, a amiga Amélia Pais, lá de Portugal, enviou a letra de uma canção italiana, Le Lettere d'Amore, interpretada por Roberto Vecchioni.

A canção baseia-se no famoso poema de Pessoa —
ou melhor, de Álvaro de Campos — sobre as cartas de amor, escrito em 21/10/1935, cerca de um mês antes da morte do poeta. Partes da letra, que transcrevo abaixo, são traduções diretas do poema. Em outros trechos, o autor fala da vida e de vários poemas de Pessoa. Ophélia, vale lembrar, era a namorada, à qual ele nunca deu muita atenção.

Mais abaixo ainda (não sei italiano), anotei o que entendo do texto. Quem quiser me corrigir, sinta-se à vontade. Como recebi o texto hoje, não podia deixar passar a data — portanto, não havia tempo para consultar alguém que conheça bem o idioma.

Clique aqui, ou no alto-falante ao lado, e ouça a bela canção de Roberto Vecchioni, acompanhando a letra.

LE LETTERE D'AMORE

Roberto Vecchioni

Fernando Pessoa chiuse gli occhiali
e si addormentò
e quelli che scrivevano per lui
lo lasciarono solo
finalmente solo...
così la pioggia obliqua di Lisbona
lo abbandonò
e finalmente la finì
di fingere fogli
di fare male ai fogli...
e la finì di mascherarsi
dietro tanti nomi,
dimenticando Ophelia
per cercare un senso che non c'è
e alla fine chiederle "scusa
se ho lasciato le tue mani,
ma io dovevo solo scrivere, scrivere
e scrivere di me..."

e le lettere d'amore,
le lettere d'amore
fanno solo ridere:
le lettere d'amore
non sarebbero d'amore
se non facessero ridere;
anch'io scrivevo un tempo
lettere d'amore,
anch'io facevo ridere:
le lettere d'amore
quando c'è l'amore,
per forza fanno ridere.

E costruì un delirante universo
senza amore,
dove tutte le cose
hanno stanchezza di esistere
e spalancato dolore.
Ma gli sfuggì che il senso delle stelle
non è quello di un uomo,
e si rivide nella penna
di quel brillare inutile,
di quel brillare lontano...
e capì tardi che dentro
quel negozio di tabaccheria
c'era più vita di quanta ce ne fosse
in tutta la sua poesia;
e che invece di continuare a tormentarsi
con un mondo assurdo
basterebbe toccare il corpo di una donna,
rispondere a uno sguardo...

e scrivere d'amore,
e scrivere d'amore,
anche se si fa ridere;
anche quando la guardi,
anche mentre la perdi
quello che conta è scrivere;
e non aver paura,
non aver mai paura
di essere ridicoli:
solo chi non ha scritto mai
lettere d'amore
fa veramente ridere.

Le lettere d'amore,
le lettere d'amore,
di un amore invisibile;
le lettere d'amore
che avevo cominciato
magari senza accorgermi;
le lettere d'amore
che avevo immaginato,
ma mi facevan ridere
magari fossi in tempo
per potertele scrivere...

*

Fernando Pessoa fechou os óculos / E adormeceu
e todos os que escreviam por ele o deixaram só / finalmente só...  / Assim a chuva oblíqua de Lisboa  / o abandonou / e finalmente acabou / de se fingir de folhas / de fazer mal às folhas... / E deixou de mascarar-se / por trás de mil nomes
esquecendo-se de Ophélia /
para buscar um sentido que não há / E no final dizer-lhe "desculpa-me / se deixei tuas mãos / mas eu tinha só que escrever, escrever / e escrever sobre mim..."

E as cartas de amor, / todas as cartas de amor / são ridículas /
não seriam cartas de amor /
se não fossem ridículas /
Também escrevi em meu tempo
cartas de amor /  eu também fui ridículo  / As cartas de amor, se há amor, / têm de ser ridículas

E construí um delirante universo
sem amor / onde todas as coisas / têm cansaço de existir /
e dor desesperada / Mas não percebi que o sentido das estrelas / não é o mesmo de um homem, / E se reviu na pena
daquele brilho inútil / daquele brilho longínquo / e percebeu tarde que dentro / de uma tabacaria / havia mais vida
que em toda a sua poesia /
E que em vez de atormentar-se /
num mundo absurdo / bastaria tocar o corpo duma mulher, / responder a um olhar...

E escrever sobre o amor / escrever sobre o amor / mesmo sendo ridículo / mesmo quando a olhas / mesmo enquanto a perdes / O que conta é escrever
E não ter medo /nunca ter medo de ser ridículo / Só os que nunca escreveram / cartas de amor é que são ridículos

As cartas de amor / as cartas de amor / de um amor invisível
As cartas de amor / que eu comecei / talvez sem perceber
As cartas de amor / que eu tinha imaginado / mas me tornavam ridículo / oxalá eu tivesse o tempo / para poder escrevê-las


 

Carne dos meus pensamentos

Neide Archanjo

 



*

Não conhecer teu corpo
mas sabê-lo possível
passível a viagens
que não as minhas.
Como te dizer
por exemplo:
Vem amiga; dar-te-ei a tua ceia
e a comida que acaso desejares
e algum poema que ilumine os ares...
se me olhas
simplesmente desinteressada
e num gesto muito teu
tiras da sacola Peg Pag
uma maçã dourada
que mordes
de estalo
e que deixa
entre os lábios e os dentes
um espaço de desejo
preenchido vorazmente
pela fruta
não pelo meu beijo?

               De As Marinhas (1984)


*

Atrás da curva dos teus ombros
uma chuva caía incessante
um pouco água um pouco bruma.

Mais acima estavam teus olhos
duas tâmaras maduras.
Então pensei: que alegria é esta
que a vida não me deu antes?

As tardes passarão esta hora passará
outras esperas outros acontecimentos
hão de turvar meu sangue.
Não hoje.



*

Quando acordei a manhã já ia alta.
Reencontrei meu corpo
meus pensamentos de ontem
e as ameixas sobre o prato azul da sala.
A carne dos meus pensamentos tem a polpa
destas ameixas
mas falta volúpia
e perfume.

O que sonho a cada dia
é morder a vida.
Assim.

               De Tudo é Sempre Agora (1994)



*

Penso partes de um corpo:
os pés tocando seixos
as costas carregando ventos.
Entra na água
e sua respiração é a de um nadador
atravessando uma gruta claríssima
repetida de anzóis.
Vai a braçadas
abrindo um cerne encarnado.
Não é por acaso
que falo de um corpo
preenchendo este espaço
Ele está aqui vivo e distante
irredutível pensamento
que ao ser escrito
torna-se esplendidamente concreto.

               De As Marinhas (1984)



SÍTIO III

                            (trecho)

Era um sonho negro
comprimindo a testa
arrancando novamente o coração
do seu compasso inerte.
Era um tremor primário
desabrochado em meu ventre
descendo embrenhado
chegando acuado estremecido
espraiado.
Era uma égua negra
(em contornos eqüestres)
erguendo à luz da meia-noite
e sobre o metal dos cascos
o corpo úmido
de relincho e espuma
os olhos certeiros
de furor e graça.
(Crescia a égua
e do enorme cio e do enorme salto
emigravam
crinas lumes maravilhas.)

Era negra.
Que me ensinava essa nova paisagem
África América
sangue e raiz alforriados
senão que deveria colher ali
(sob a terra escura do seu corpo escuro)
a híbrida claridade?

Tinha um modo vadio de andar
cheio de panos
as mãos coalhadas de anéis
o pescoço ajaezado
dois olhos de veludo
dois seios
como duas ilhas conjugadas
duras concentradas
num cerne preto
intumescido rutilante.
Sublevadas.
Mais o fogo cruzado
vindo vivo ateado
do fundo de um vulcão
enfurnado entre dois montes
coxas lava ebulição.
Quando dormia o santo vigiava
a noite do seu corpo
uma noite tão antiga
etíope ou persa?
(pele que a cobria)
uma noite tão sensível
larga alta
(manto que a encobria).
Não era noite
era dia.

E quantas andaduras numa só:
passo galope trote salto balanço
ancas molecas num vaivém safado
de mucama
de égua solta no pasto
só passível de caça e resgate
debaixo do laço forte do amor.

E veio égua
estendendo os braços
onde sorriam braceletes de marfim
pulseiras de prata
(ai de mim!)
enigmas segredos
hieróglifos de ouro
tatuagens de mil anos.

Veio negra
lindíssima
como um lírio de Ofir
e habitou a tenda que armei
entre silêncios
do ócio mais ardente
alegria luminosa de carícias
coisas perfumadas trazidas de viagens
feitas por terra
e por mar.

Deitou seu corpo ao lado do meu.
Abrigou-se.
À nossa volta tudo foi
farto doce e santo
o verde o roxo o branco
mais uma ternura
que sabia ser volúpia
e quis ser encanto.

(Sentada
nua).

               De Escavações (1980)

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2007

Neide Archanjo
In Todas as Horas e Antes
Poesia Reunida
A Girafa, São Paulo, 2004
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* Mario Quintana, "O relógio", in Caderno H