Número 395 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 21 de março de 2018

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«Aquele rio / está na memória / como um cão vivo / dentro de uma sala.» (João Cabral de Melo Neto)

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Hilda Hilst
Hilda Hilst



Amigas e amigos,

Nesta edição, o poesia.net revisita, pela terceira vez, a obra da poeta paulista Hilda Hilst (1930-2004). A primeira incursão na poesia de Hilda circulou em 2004, coincidentemente na data de seu falecimento: 4 de fevereiro. Naquele boletim (n. 54), destacou-se o lirismo amoroso de Hilda Hilst, com poemas extraídos dos livros Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974) e Amavisse (1989).

A segunda visita ao trabalho de Hilda (poesia.net n. 353), de maio/2016, voltou a atenção para outro aspecto: seus diálogos poéticos com a indesejada das gentes, contidos no livro Da Morte. Odes Mínimas (2003). Agora, o retorno da autora foi motivado pelo recente lançamento de sua obra completa, com o título Da Poesia (Cia. das Letras, 2017).

Desse novo volume selecionei uma exata meia dúzia de poemas que formam mais uma pequena amostra das criações hilstianas.

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Vocês vão notar que vários dos poemas têm numerais, arábicos ou romanos, como títulos. Isso decorre do fato de que Hilda costumava escrever longas séries (às vezes, livros inteiros) de poemas numerados. O primeiro texto da seleção é “XX”, extraído do volume Balada do Festival (1955), terceiro título publicado pela poeta. Nesse poema, a autora discorre sobre o amor e conclui de forma desconsolada: “Somos humanos e frágeis / mas antes de tudo, sós”.  E até lamenta: “Ai daqueles que nos amam”.

O próximo poema, “[O Cavalo no Vale]” não tem título. Como sempre fazemos nesses casos, usamos à guisa de título o primeiro verso entre colchetes. Nele comparece uma Hilda em seu esplendor lírico. São apenas sugestões poéticas que terminam com um belo trecho musical: “Espero que a paisagem desta tarde // Adormeça / O cavalo no vale / O vento no capim / Os roseirais em mim”. Este poema foi publicado originalmente em Ode Fragmentária (1961).

Chega a vez do poema “I”, extraído do já citado livro Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974). O formato, aqui, é de um bilhete à pessoa amada, que já se inicia com um pedido de adesão da outra parte: “manda-me dizer: / — É lua cheia. A casa está vazia —”. Aparentemente, o amante que escreve, poeta, espera que do outro lado também haja um/a poeta. Afinal, não é sempre que alguém escreve uma antítese tão cheia de sugestões e convites.

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O poema “II” também vem de Júbilo Memória Noviciado da Paixão. Aqui, a dicção de Hilda assume traços do lirismo amoroso de padrão clássico. Em linguagem elevada, coloca o amor num patamar inalcançável. “Esplêndida avidez, vasta ventura / Porque é mais vasto o sonho que elabora // Há tanto tempo sua própria tessitura”.

O texto seguinte, “8”, é parte do livro Trajetória Poética do Ser (1967). Trata-se de uma dessas criações que conseguem compactar, em poucos e curtos versos, uma pequena joia lírica: “Unir numa só fonte / O que souber ser vale / Sendo altura”.

Vem, por fim, o poema “Do Desejo”. Mais uma vez, em apenas duas linhas, Hilda Hilst diz tudo. Este poema é, na verdade, uma epígrafe usada na abertura do livro homônimo, de 1992. Duas linhas verdadeiramente antológicas.

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Nascida em Jaú-SP em 1930, Hilda de Almeida Prado Hilst era filha de fazendeiros de café. Estudou na Faculdade de Direito da USP, onde concluiu o curso em 1952. A partir de 1964, recolhe-se à fazenda de sua mãe em Campinas-SP. Nesse local, construiu a Casa do Sol, sua residência e ambiente cultural, onde hospedou escritores e artistas. Além de poesia, Hilda Hilst escreveu ficção, peças de teatro e traduções. Seu legado inclui mais de 20 livros de poesia, agora reunidos em Da Poesia (Cia. das Letras, 2017). A poeta faleceu em 2004.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Ai daqueles que nos amam

• Hilda Hilst


              



Jeremy Mann - Untitled - Grace
Jeremy Mann, pintor americano, Sem título - Grace


XX

Nós, poetas e amantes
o que sabemos do amor?
Temos o espanto na retina
diante da morte e da beleza.
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

Somos inimigos.
Inimigos com muralhas
de sombra sobre os ombros.
E sonhamos. Às vezes
damos as mãos àqueles
que estão chorando.
(os que nunca choraram por nós)

Ah, meus irmãos e irmãs...
Ai daqueles que nos amam
e que por amor de nós se perdem.
Ah, pudéssemos amar um homem
ou uma mulher ou uma coisa...
Mas diante de nós, o tempo
se consome, desaparece e não para.

Ouvi: que vossos olhos se inundem
de pranto e água de todo o mundo!
Somos humanos e frágeis
mas antes de tudo, sós.

  De Balada do Festival (1955)





Jeremy Mann - The demure
Jeremy Mann, Recatada


[O CAVALO NO VALE]

O cavalo no vale.
E mais além
O meu olhar mais verde do que o vale
E claro de esperança
E querer bem.

O vento no capim.
O vermelho cansado deste outono.
Os roseirais em mim.
E tudo me parece
Tão tranquilo e leve.

E com muito cuidado
Como quem tem na mão a flor e o quadro

Espero que a paisagem desta tarde

Adormeça
O cavalo no vale
O vento no capim
Os roseirais em mim.

  De Ode Fragmentária (1961)



Jeremy Mann - Portrait of Lindsey
Jeremy Mann, Retrato de Lindsey


I

Se for possível, manda-me dizer:
— É lua cheia. A casa está vazia —
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
— É lua nova —
E revestida de luz te volto a ver.

  De Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974)




Jeremy Mann - Portrait with bomber jacket
Jeremy Mann, Retrato com jaqueta de bombardeiro


II

Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me.
E eu te direi que o nosso tempo é agora.
Esplêndida avidez, vasta ventura
Porque é mais vasto o sonho que elabora

Há tanto tempo sua própria tessitura.

Ama-me. Embora eu te pareça
Demasiado intensa. E de aspereza.
E transitória se tu me repensas.

  De Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (1974)




Jeremy Mann - Porttrait of TC in white
Jeremy Mann, Retrato de T.C. vestindo branco


8

Ser terra
E cantar livremente
O que é finitude
E o que perdura.

Unir numa só fonte
O que souber ser vale
Sendo altura.

  De Trajetória Poética do Ser (I) (1967)



Jeremy Mann - La bella di Firenze
Jeremy Mann, La bella di Firenze


DO DESEJO

Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.

  De Do Desejo (1992)





poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



Hilda Hilst
•  in Da Poesia
    Cia. das Letras, São Paulo, 2017
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* João Cabral de Melo Neto, "O Cão Sem Plumas" (1950)
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* Imagens: obras de Jeremy Mann (1979-), pintor americano