Número 417 - Ano 17

São Paulo, quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

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«O que esperais de um Deus? / Ele espera dos homens que O mantenham vivo.» (Hilda Hilst) *

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William Carlos Williams
William Carlos Williams



Amigas e amigos,

Considerado um dos grandes mestres da literatura norte-americana no século XX, o poeta William Carlos Williams (1883-1963) já esteve aqui no poesia.​net na edição n. 30, de 2003, logo nos primeiros meses do boletim.

Estreante na poesia em 1909, Williams tornou-se um dos principais responsáveis pela renovação da linguagem poética em seu país. Em seus poemas, usou inglês coloquial e influenciou muitos dos poetas das gerações posteriores, em especial os autores da chamada Geração Beat, como Allen Ginsberg e Kenneth Rexroth.

Conhecido como WCW, William Carlos Williams produziu copiosamente. Publicou mais de 20 títulos de poesia, outro tanto de obras em prosa e ainda quatro peças de teatro, mais o libreto de uma ópera. No Brasil, a reunião mais conhecida de sua poesia foi traduzida pelo poeta José Paulo Paes: Poemas (Cia. das Letras, 1987).

Para José Paulo Paes, “William Carlos Williams se destaca por sua capacidade de transformar todo assunto ou objeto em matéria poética. (...) Daí sua atenção toda peculiar ao fugaz e ao diminuto, ao aparentemente desimportante, enfim”. Mas, em outro ponto, o mesmo José Paulo Paes faz questão de dizer que os poemas de WCW trabalham com uma banalidade “fosforescente”.

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Neste boletim, as traduções de José Paulo Paes são a fonte principal. Contudo, abro a miniantologia ao lado com um poema traduzido pelo poeta carioca Antonio Cicero. Trata-se de “Isto é só para dizer”.

Esse texto demonstra plenamente a observação de José Paulo Paes. WCW eleva um bilhete doméstico à condição de poema. Como diz Paes, estão aí o fugaz, o diminuto e o aparentemente desimportante. Sem pedantismo, sem fogos de artifício, sem literatice.

No poema seguinte, “Explicação”, o poeta reafirma a ideia de prestar atenção ao cotidiano das pessoas humildes (“gente nossa que não é ninguém”). Avisa ainda aos “cidadãos de prol” que também se interessa por eles — “só que não / da mesma maneira”.

•o•

O próximo texto, “Poema”, pertence à mesma categoria de “Isto é só para dizer”. Aqui a atenção do poeta se volta, em detalhes, para uma ação trivial de um gato doméstico. Naturalmente, esse tipo de poema, escrito entre 1921 e 1931, deve ter causado comichão nos conservadores da literatura.

A maneira como o poeta desenvolve o poema “Morte”, outro texto da mesma época, é também de deixar os conservadores de cabelo em pé. Nele, WCW traz para a poesia a linguagem despachada e irreverente com que as pessoas, em conversas descomprometidas, abordam qualquer tema, inclusive a morte.

No poema “A uma velha pobre”, o tom descontraído se mantém. Agora, o poeta tenta descrever a satisfação de uma mulher idosa que come ameixas na rua. Já em “A Duração”, o objeto é uma folha de papel pardo levada pelo vento. Mais uma vez, um poema centrado naquilo que parece minúsculo e insignificante.

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Filho de pai inglês (criado na República Dominicana) e mãe porto-riquenha, William Carlos Williams foi médico pediatra e clínico geral. Perspicaz observador, como se pode constatar nos poemas, ele como poeta beneficiou-se da medicina, que lhe permitia o contato com famílias inteiras. Consta inclusive que atendia gratuitamente clientes pobres em seu consultório.

Descobriu-se recentemente, em 2017, o lugar exato em que WCW se inspirou para escrever seu poema mais famoso, “O Carrinho de Mão Vermelho”, publicado em 1923 (leia-o no boletim n. 30). Para José Paulo Paes, esse poema é uma espécie de “No Meio do Caminho” para a poesia moderna americana.

O carrinho de mão — segundo um historiador de Rutherford, cidade do estado de Nova Jersey onde WCW nasceu e passou a vida inteira — pertencia a um verdureiro ambulante, negro, chamado Marshall. Foi na casa dele que Williams viu o carro de mão cercado de galinhas, como diz o poema. Assim, a casa ganhou a atenção do Patrimônio Histórico da cidade.

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É preciso deixar claro que a poesia de William Carlos Williams, especialmente seus escritos em idade mais madura, inclui também poemas em outras dicções, mais reflexivas e mais complexas. No entanto, o objetivo aqui foi mostrar alguns exemplos da poesia que o tornou tão famoso e tão influente na literatura norte-americana.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Quando o banal fosforesce


• William Carlos Williams


              



Casey Baugh - Nocturnus (series)
Casey Baugh, pintor americano, Nocturnus (série)


ISTO É SÓ PARA DIZER

Eu comi
as ameixas
que estavam
na geladeira

as quais
você decerto
guardara
para o desjejum

Desculpe-me
estavam deliciosas
tão doces
e tão frias

  Tradução: Antonio Cicero, no blog Acontecimentos


THIS IS JUST TO SAY

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

  De The Collected Poems v.1, New York: A New Directions Book, 1986



Casey Baugh - Yellow
Casey Baugh, Amarelo


EXPLICAÇÃO

Por que eu hoje escrevo?

A beleza das
caras terríveis
de gente nossa que não é ninguém
me estimula a isso:

mulheres de cor
trabalhadoras diaristas —
idosas e experientes —
voltando à casa de noitinha
com suas velhas roupas
suas caras em velho
carvalho florentino.

Também

as peças bem ajustadas
de vossas caras me estimulam —
cidadãos de prol —
só que não
da mesma maneira.


APOLOGY

Why do I write today?

The beauty of
the terrible faces
of our nonentities
stirs me to it:

colored women
day workers —
old and experienced —
returning home at dusk
in cast off clothing
faces like
old Florentine oak.

Also

the set pieces
of your faces stir me —
leading citizens —
but not
in the same way.


  De Al Que Quiere! (Ao que quer), 1917



Casey Baugh - Vintage chair
Casey Baugh, Cadeira antiga


POEMA

Ao trepar sobre
o tampo do
armário de conservas

o gato pôs
cuidadosamente
primeiro a pata

direita da frente
depois a de trás
dentro

do vaso
de flores
vazio


POEM

As the cat
climbed over
the top of

the jamcloset
first the right
forefoot

carefully
then the hind
stepped down

into the pit of
the empty
flowerpot


  De Collected Poems 1921-1931 (Poemas reunidos), 1934



Casey Baugh - Ana
Casey Baugh, Ana


MORTE

Ele está morto
o cão não terá mais
de dormir sobre as batatas
dele para evitar
que congelem

está morto
o velho bastardo —
É um bastardo porque

já não há mais nada
de legítimo
nele
  está morto
de dar nojo


       é
uma velharia
esquecida de Deus sem
nenhum sopro de vida

Não é coisíssima alguma
  está morto
pele só

  Ponham-lhe a cabeça
numa cadeira e os
pés em outra e ele
ficará ali esticado
feito um acrobata —


DEATH

He’s dead
the dog won’t have to
sleep on his potatoes
any more to keep them
from freezing

he’s dead
the old bastard —
He’s a bastard because

there’s nothing
legitimate in him any
more
  he’s dead
He’s sick-dead

       he’s
a godforsaken curio
without
any breath in it

He’s nothing at all
  he’s dead
shrunken up to skin

  Put his head on
one chair and his
feet on another and
he’ll lie there
like an acrobat —


  De Collected Poems 1921-1931 (Poemas reunidos), 1934



Casey Baugh - Red carpet
Casey Baugh, Tapete vermelho


A UMA VELHA POBRE

mascando ameixas pela
rua um saco de papel
cheio delas na mão

Elas lhe parecem saborosas
Elas lhe parecem
saborosas. Elas
lhe parecem saborosas

A gente pode ver isso
pelo jeito dela
se concentrar na fruta
meio chupada

Satisfeita
um gosto de ameixas maduras
como que enchendo o ar
Elas lhe parecem saborosas


TO A POOR OLD WOMAN

munching a plum on
the street a paper bag
of them in her hand

They taste good to her
They taste good
to her. They taste
good to her

You can see it by
the way she gives herself
to the one half
sucked out in her hand

Comforted
a solace of ripe plums
seeming to fill the air
They taste good to her


  De An Early Martyr (Um mártir precoce), 1935



Casey Baugh - Nocturnus (series) - detail
Casey Baugh, Nocturnus (série) - detalhe


A DURAÇÃO

Uma folha amarfanhada
de papel pardo mais
ou menos do tamanho

e volume aparente
de um homem ia
devagar rua abaixo

arrastada aos trancos
e barrancos pelo
vento quando
veio um carro e lhe
passou por cima
deixando-a aplastada

no chão. Mas diferente
de um homem ela se ergueu
de novo e lá se foi
com o vento aos trancos
e barrancos para ser
o mesmo que era antes.


THE TERM

A rumpled sheet
of brown paper
about the length

and apparent bulk
of a man was
rolling with the

wind slowly over
and over in
the street as

a car drove down
upon it and
crushed it to

the ground. Unlike
a man it rose
again rolling

with the wind over
and over to be as
it was before.


  De The Complete Collected Poems 1906-1938
  (Poemas reunidos completos), 1938





poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2019



• William Carlos Williams
   - “Isto é só para dizer”
     in Blog Acontecimentos, trad. Antonio Cicero
     Original em inglês: in The Collected Poems v.1,
     New York: A New Directions Book, 1986
   - Todos os outros poemas
     in Poemas
     Seleção, tradução e estudo crítico de José Paulo Paes
     Cia. das Letras, São Paulo, 1987
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* Hilda Hilst, "Passeio", in Exercícios, Ed. Globo (2002)
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* Imagens: obras de Casey Baugh (1984-), pintor americano.