Número 7

16/04/2014

«O que estará dizendo / o lábio quase humano / da orquídea?» (Cassiano Ricardo) *
 


Carlos Drummond de Andrade

Caros,

Vejam ao lado uma interessante coincidência  de ideias entre diferentes manifestações artísticas. Um verso de Carlos Drummond de Andrade, publicado em 1945, repete-se na letra da canção "Street Fighting Man", dos Rolling Stones, composta e gravada em 1968.

Carlos Machado


 

 

 



 

Drummond e os Rolling Stones

"Meu nome é tumulto". De quem é este verso? Os mais antenados vão dizer: Drummond. E se eu disser que é dos Rolling Stones?

Carlos Machado          


Rolling Stones Drummond e os Rolling Stones: versos similares


«Meu nome é tumulto, e escreve-se na pedra»
            (Carlos Drummond de Andrade,
            no poema "Nosso Tempo",
            in A Rosa do Povo, 1945)

«Hey, my name is called Disturbance»
            (Mick Jagger e Keith Richards,
            dos Rolling Stones, na canção
            "Street Fighting Man", 1968)



Vejam só que coincidência: Drummond e os Rolling Stones escreveram versos bastante similares. Vinte e três anos separam os lançamentos das obras que contêm esses versos. O poema de Drummond está no livro A Rosa do Povo, de 1945. A música de Jagger-Richards saiu pela primeira vez em agosto de 1968, num compacto simples, e depois foi integrada como a primeira faixa do lado B do álbum Beggars Banquet (Banquete dos Mendigos), que chegou às lojas inglesas e americanas em dezembro do mesmo ano.

Richards e Jagger: Street Fighting Man, na versão de 1968, com a letra


O verso drummondiano integra o poema “Nosso Tempo”, texto longo dividido em oito partes, no qual o poeta traça um retrato do mundo conflagrado na Segunda Guerra Mundial, enquanto os brasileiros também enfrentavam a ditadura do Estado Novo. As duas primeiras linhas do texto são sintomáticas: “Este é tempo de partido, / tempo de homens partidos”. Conforme a professora Marlene de Castro Correia, estudiosa da obra de Drummond, esses dois versos definem a ideia central do poema. O texto constata a fragmentação dos seres humanos naquele momento histórico-cultural, mas não admite a abstenção: “exige que se faça uma opção ideológica, que se assuma uma posição política, que se tome partido, enfim”, escreve a professora.

Para ela, na estrofe seguinte, o poeta identifica-se ideologicamente:


Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.


Com efeito, versos desse naipe só poderiam surgir num momento histórico como aquele, tão exigente.

Composta sob o impacto do Maio de 1968 na França e das manifestações contra a guerra do Vietnã nos Estados Unidos, a canção “Street Fighting Man” (Lutador de Rua) também foi escrita num momento de conflito social. É música de um tempo em que o rock’n’roll ainda era rebelde.

A letra começa descrevendo o contexto das manifestações "em toda parte" e afirma que é hora de lutar. Contudo, lamenta que na “Londres sonolenta” não haja lugar para combates de rua.

 


STREET FIGHTING MAN
LUTADOR DE RUA

Everywhere I hear the sound of marching, charging feet, boy,
'Cause summer's here and the time is right for fighting in the street, boy


Em toda parte escuto o som de pés marchando, rapaz
Pois o verão chegou e é a hora certa de lutar nas ruas, rapaz

Well, then what can a poor boy do, except to sing for a rock & roll band?
Cause in sleepy London Town there's just no place for a street fighting man, no


Então o que pode um rapaz pobre fazer, senão cantar numa banda de rock?
Porque nessa Londres sonolenta não há lugar para um lutador de rua, não

Hey! Think the time is right for a palace revolution,
Cause where I live the game to play is compromise solution


Ei, acho que é a hora certa para um golpe palaciano,
pois onde moro o jogo que se joga é solução de compromisso

Hey, my name is called Disturbance;
I'll shout and scream, I'll kill the King, I'll rail at all his servants


Ei, meu nome é Tumulto;
Vou gritar e bradar, vou matar o Rei e condenar todos os seus servos
 



É óbvio que toda essa bravata "revolucionária" e meio anarquista só poderia ser gravada numa democracia como a Inglaterra. Seria impensável alguém no Brasil cantando algo assim, em 1969, nos tenebrosos tempos do AI-5 e do general Garrastazu Médici.

Um detalhe interessante: a expressão palace revolution (que traduzi aí em cima como "golpe palaciano") significa um golpe de estado tramado por pessoas que já ocupam posições de poder. Isso mostra que a letra não apresenta nenhuma proposta "revolucionária" — é pura empolgação dos Stones, refletindo o clima geral de rebeldia do ano que (aqui) não terminou. Na verdade, a letra lamenta que o jogo possível na Inglaterra é "solução de compromisso", não há lugar para uma revolução de fato.

Os ânimos de 68 estavam mesmo exaltados. Se “Street Fighting Man” abria o lado B do elepê, a primeira faixa do lado A também não era pouco escandalosa: “Sympathy for the Devil” (Simpatia pelo Diabo), canção na qual o Demo fala em primeira pessoa. Apresenta-se como Lúcifer, homem rico e de bom gosto, gaba-se de ter feito e acontecido durante toda a História, e ainda exige ser tratado com simpatia. Mas Mr. Lúcifer também sugere, em certo trecho da letra, que todas as atrocidades que ele cometeu foram na verdade obras do ser humano: "eu e você". Os Rolling Stones talvez não soubessem exatamente o que estavam fazendo, mas com certeza se integraram muito bem ao espírito contestador da época.

Quanto aos dois versos que geraram toda essa discussão (“Meu nome é tumulto” e “My name is called Disturbance”), eles de fato são muito parecidos. Aliás, em inglês, um dos sinônimos de disturbance é tumult, palavra que vem da mesma raiz latina (tumultus) que o nosso "tumulto".

 

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Outras Palavras

Carlos Machado, 2014

•  Outras Palavras
    Verso de Drummond:
         "Nosso Tempo", in A Rosa do Povo (1945)
   
Verso dos Rolling Stones:
         Autores: Jagger-Richards
         Canção: "Street Fighting Man"
         Álbum: The Beggars Banquet (1968)
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* Cassiano Ricardo
  "A Orquídea", in Um Dia Depois do Outro (1947)